A espiritualidade no matrimonio e na família no período de isolamento social por causa da covid-19.

Na Exortação Apostólica: “A missão da Família Cristã no mundo de hoje” de São João Paulo II, em sua terceira parte diz: “Família, torna-te aquilo que és!”. Neste momento em que a humanidade sofre com as inseguranças e instabilidades por causa da pandemia, vale refletir sobre a real necessidade da família voltar a ser o que é, ou seja, “uma comunidade”, onde o amor é experimentado de maneira integral entre os seus membros, onde esposo, esposa e filhos vivam a dimensão do perdão intensamente de maneira horizontal no seio familiar. Faz-se necessário perceber as maravilhas existentes dentro da família e não abrir mão dela. Quando falamos de preciosidade, nos vêm ao coração e ao pensamento algo valioso. A família, depois de Deus, é um bem precioso, é o bem maior.

Um suporte essencial para viver bem o isolamento social, é a espiritualidade nutrida no matrimonio e na vivência familiar.

Não podemos esquecer que o mais importante é cuidarmos da nossa vida espiritual, e da espiritualidade familiar, proporcionando momentos de oração, tendo contato com a Palavra de Deus; participar das missas televisivas; cultivar a devoção mariana meditando o terço; fazer as refeições e lanches juntos e acompanhados de orações de agradecimentos; pois isto nos sustentará diante de todas as diversidades da vida.

Vivemos um momento histórico para a humanidade e da mesma forma, para cada um de nós. As lembranças destes dias em que o mundo parou e teve que se unir contra um inimigo invisível, terão na vida dos nossos filhos uma importância referencial, apontando como viver momentos de crise, ou melhor, ensinando como a nossa família reagem nas dificuldades. É tempo de demonstrar claramente que Jesus está no comando das nossas vidas e que não temos o que temer, que Nele temos paz ainda que recolhidos em casa, porque confiamos tudo ao Seu cuidado.

Podemos enxergar nessas situações ordinária que estamos vivendo o extraordinário de Deus.

O recolhimento deve ser visto pelos casais como momento de aproximação, pois muitos casais estavam vivendo um esfriamento, no matrimonio e um afastamento entre os membros. Quem sabe aproveitar o isolamento para conversar e escutar mais. Geralmente a qualidade da vida matrimonial está muito relacionada com a qualidade do tempo que se dedica a ela, o tempo que gasta com aquele a quem ama. O termo “tempo de qualidade” se refere ao tempo útil, produtivo e frutuoso. Este tempo deve ser planejado para ser usado com o que realmente importa, ou seja, com aquele a quem ama, os cônjuges, os filhos e consequentemente com a família.

Esse tempo de isolamento social deve ser aproveitado como tempo de realinhar prioridades. Muitos foram até “obrigados” a voltarem para as suas casas e com certeza se surpreenderam, pois perceberam que em suas rotinas estavam afastados uns dos outros. E, é fato que cônjuges que permanecem unidos aproveitam melhor o tempo e juntos reconhecem a beleza de uma família que pela graça de Deus puderam gerar.

O estar juntos, unidos numa convivência familiar deve ser algo agradável e não uma cobrança. “Um ritual em família”, por exemplo: sentar à mesa para as refeições juntos; momento do terço; um dia de bate papo, participar da missa juntos pelo menos uma vez por semana, aos domingos. Assim, o tempo gasto dessa forma é vivido com qualidade e a família toda verá que a união desperta o crescimento, não importando a idade.

Viver com a família na maior normalidade possível, dentro das restrições, esse é o grande desafio de fé para este tempo de isolamento social. Temos que aprender do Mestre Jesus, que para falar aos corações acessava os interesses do ouvinte, tecendo comparações familiares ao interlocutor com o objetivo de anunciar o Reino de Deus. São Paulo nos fala da necessidade de nos fazermos “tudo com todos”. Percebendo a individualidade de cada um, sua idade, interesses e sua forma de pensar. Crianças precisam brincar e ouvir histórias fabulosas. Um mundo mágico pode ser criado sem sair do tapete da sala, apenas com alguma dose de criatividade. É tempo de escrever pra sempre no coração dos pequenos, através da imaginação que o amor familiar brota do coração bondoso de Deus. Os adolescentes e jovens têm uma tendência a se fecharem em seu próprio mundo, onde a diferença entre as gerações é aprofundada pela experiência tecnológica, do qual eles são nativos e os mais velhos eternos aprendizes de ferramentas que invadiram suas vidas. Grande desafio é respeitar e ao mesmo tempo conhecer o mundo dos adolescentes e jovens. Maior desafio ainda é introduzi-los no nosso mundo. Ensinar o que sabemos, contar quem somos e porque somos assim. Declarar as razões da nossa fé. É impressionante quantos filhos católicos, recebem a fé por herança de forma deficiente. Recebem uma herança, mas não sabem onde encontrar o testamento, correndo o risco de perder o tesouro já conquistado na sua família.

São muitos os desafios neste momento de isolamento social. Mas, temos que manter a fé e mais do que nunca confiar que Deus vai nos mostrar através do seu Espírito Santo o que precisamos saber e ensinar sobre cada membro de nossa família. É imprescindível viver este tempo na visão espiritual, porque esse desaceleramento do mundo pode ter um propósito, talvez tenha sido somente para nos fazer olhar pra dentro de nós, para aqueles que amamos, pra tudo o que realmente importa em nossas vidas e dizer ao nosso Deus: “Leva-me aonde os homens necessitem da tua Palavra, mesmo que seja dentro da minha própria casa”.

Com minha benção para todas as famílias!

Pe. Anderson Carvalho

Pároco da Paróquia Nossa Senhora Aparecida